[1998] El Privilegio de Amar

A escritora Delia Fiallo tem em sua trajetória algumas das mais marcantes novelas latinas de todos os tempos. E talvez o auge da sua criação tenha sido a venezuelana Cristal, de 1985, que viria a ser a base de um dos maiores sucessos de todos os tempos da TV mexicana: El Privilegio de Amar, mais uma novela com o selo de qualidade das produções de Carla Estrada.

Na história, Luciana (Helena Rojo) é uma poderosa empresária do mundo da moda casada com o ator de TV André Duval (Andrés Garcia). O trabalho é a forma que ela encontra para mascarar seu passado, quando foi empregada em uma casa e se entregou ao filho dos patrões, que viria a se tornar o Padre João da Cruz (César Évora). Depois de ficar grávida, as circunstâncias a obrigam a abandonar essa criança. Anos depois, essa menina é a órfã Cristina (Adela Noriega), uma jovem que tem o sonho de ser uma grande modelo. E será assim que os caminhos de mãe e filha irão se cruzar. Para completar o enredo, Cristina se apaixona por Victor Manuel (René Strickler), filho de André, vivendo um amor proibido e tendo Luciana como sua maior inimiga.     blog-privi-06 O argumento de Delia Fiallo é um dos mais completos já vistos. Aqui temos o amor impossível entre os protagonistas, a mãe que odeia a filha ignorando o laço que as une, a trama de amor dos personagens mais maduros, com direito a infidelidades, um padre, a mãe obsessiva deste, enfim, El Privilegio de Amar é um prato cheio – e da melhor qualidade – de um verdadeiro dramalhão, mas conduzido com sabedoria, fazendo desta uma das melhores novelas já apresentadas na TV.

Um dos principais conflitos da novela, um padre que tem uma filha perdida, foi tratado com tanto bom gosto, que em nenhum momento caiu na apelação.

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Delia Fiallo – pra variar – não esteve de acordo com algumas escalações e com algumas escolhas feitas pela adaptação da novela, aqui, a cargo de Liliana Abud. Segundo ela, o perfil de Ana Joaquina (Marga Lopez), a mãe de João da Cruz, uma fanática religiosa, estava muito diferente do idealizado por ela. Na original, a personagem se arrependia, e nesta, sua loucura foi um dos pontos mais marcantes da trama. Ela também reclamou que Luciana era uma chorona, e não uma mulher dura e implacável como sua “Victoria Ascânio” de Cristal. Outras diferenças: Alonso (Toño Mauri) terminaria a novela com Magnólia (Isadora González), mas aqui em nenhum momento eles chegaram perto de um envolvimento. A personagem Lourença (Sabine Moussier), a amante de André, também era considerada dramática demais segundo Delia.

Os fãs e adoradores de Cristal corroboraram as críticas de sua autora, mas para muitos, e sobretudo o público mexicano, consagrou El Privilegio de Amar como um êxito retumbante. Tanto que no México, conseguiu algo improvável, superou a audiência de sua antecessora, La Usurpadora, e desde então, detém com folga o título de novela de maior audiência desde 1998. Em uma época onde as novelas dificilmente passavam de 100, esta chegou a 155 capítulos, sem jamais perder audiência, e o principal: sem jamais ver a qualidade da história cair.

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Com um elenco numeroso e com múltiplos personagens de importância dentro da trama, foram inúmeros os destaques, até porque esse elenco é um dos mais grandiosos e estelares já reunidos. Helena Rojo brilhou como Luciana Duval e teve aqui um de seus melhores (senão, o melhor) personagem em telenovelas. A vital importância dos dramas da personagem, mesmo sob o aspecto pessoal, evitaram que a personagem não passasse de uma mãe em busca de uma filha. Os conflitos amorosos também tiveram muito espaço, seja pela própria história original, como pelo sucesso que novelas que seguiram esse caminho (como Mirada de Mujer) alcançaram. Assim que Helena Rojo dividiu o protagonismo com Adela Noriega, que mais uma vez, teve também uma atuação inspirada. Como Cristina, ela mais uma vez fez uso de seus ilimitados recursos para prender a atenção da audiência: dona de um grande carisma e de uma habilidade impressionante para as lágrimas, mais uma vez arrasou.

César Évora fez uma interpretação memorável como padre, fazendo de seu personagem um dos mais queridos da novela. Sua atuação foi elogiada pelo Vaticano! Andrés Garcia, um ator fraco, mas bastante empático, fez uma aparição marcante como o badalado ator. E René Strickler recebeu sua maior oportunidade aqui, numa interpretação correta como Victor Manuel.

blog-privi-05As maiores revelações da novela foram Sabine Moussier e Adriana Nieto. Sabine Moussier já havia chamado a atenção em seu trabalho anterior (Maria Isabel, 1997), mas foi aqui que deu um pulo e se consagrou. Lourença era encantadora, porque poderia ter gerado a antipatia por suas atitudes, mas ainda assim parecia simpática. Aqui também corroborou que o caminho da atriz seriam as mulheres que não desistem nunca do homem amado – seja como vilã ou não. E Adriana Nieto viveu a rebelde Elizabeth, a outra filha de Luciana. Bastante natural, a atriz se sobressaiu sobretudo quando a personagem fica paralítica. Em razão do Teleton mexicano, Carla Estrada decidiu que Elizabeth não se levantaria da cadeira de rodas – mostrando que mesmo os cadeirantes, podem sim ter um final feliz. Uma escolha delicada e acertada.

O time de vilões teve apenas atores de luxo em seu casting. Enrique Rocha marcou como o excêntrico Nicolas Obregon, o amigo invejoso de Andrés. Marga Lopez fez um de seus papéis mais memoráveis como Ana Joaquina. Suas frases obsessivo-religiosas fizeram sua personagem brilhar do começo ao fim. Mas talvez o grande nome seja o de Cynthia Klitbo, que ficou marcada para sempre como a psicopata Tamara. A personagem tinha um Q de tragédia. Chegou a ficar louca, fugia, e o ápice foi raspar os cabelos na reta final da novela – uma das cenas mais emblemáticas da novela.

blog-privi-03Ao longo da história, mais dois nomes marcantes se incorporaram a novela: Maria Sorté, que brilhou como Vivian dos Anjos, outra mãe sofrida, mas moderna e muito, muito sofisticada, e Maty Huitrón, que foi Bárbara, a mãe alcoólatra de Victor Manuel. Essa, apesar da caracterização fake e engraçada, chamou a atenção – inclusive, pelo humor involuntário.

A primeira fase da novela ainda contou com as atuações da cantora Edith Márquez como Luciana, e Diana Bracho como Ana Joaquina – esta última, tão impecável quanto Marga Lopez.

O maior pecado desta adaptação foi a criação de inúmeros personagens desnecessários, sobretudo quando Cristina e suas amigas se mudam para um novo vilarejo. Surgiram histórias irrelevantes, e, sobretudo, sem necessidade, sendo que somente a história principal já ocupava espaço o suficiente. Alguns, como Miriam (Nuria Bages) e Cristóvão (Claudio Baez), também acabaram apagados.

Também a densidade de alguns temas, como o alcoolismo de Bárbara, ou o câncer de mama de Lourença, ou mesmo a doença incurável de Alonso, quase deixaram a novela pesada, não fosse o bom senso da adaptação de mesclar com outras situações menos dramáticas.

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Muitas cenas ficaram no imaginário do público: a noite de amor entre Luciana e João da Cruz jovens, o juramento de Luciana, o primeiro encontro entre ela e Cristina no desfile beneficente, quando Tamara faz Cristina tropeçar estando grávida, o flagra de Luciana em Lourença e André na banheira de um motel (um dos melhores barracos de todos os tempos), e as revelações onde Cristina descobre quem é seu pai, e posteriormente sua mãe.

O último capítulo rendeu ainda mais momentos inesquecíveis: a punhalada que Tamara acerta acidentalmente em Luciana, e o assassinato recíproco entre Tamara e Nicolas, vestidos como personagens da obra Othelo, em pleno palco. A cena final, com todo o elenco reunido na imensa escadaria que fazia parte de um dos principais cenários da novela – o palacete dos Duval (onde inclusive, foi possível rodar a abertura da novela em um bem desenvolvido plano-sequência) deu todo o tom de que era um verdadeiro sucesso o que havia finalizado naquela noite.

O projeto original da novela – que receberia o inusitado título Rosa Mexicano – contemplava Veronica Castro e Thalia como Luciana e Cristina.

Essa novela consagrou Carla Estrada definitivamente como uma das produtoras mais bem-sucedidas da TV mexicana. Um mérito muito merecido, pois El Privilegio de Amar foi um novelão de primeira grandeza, um dos mais recordados e queridos pelo público.

Confira um vídeo com o elenco da novela!

13 comentários sobre “[1998] El Privilegio de Amar

  1. Luccas

    Infelizmente, só fui ver essa novela em 2008 e ela já tinha uma imagem um pouco velho. Porém, chamou minha atenção a modernidade das coisas, para época que foi filmada, claro. Boa novela.

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Sou até suspeito porque é uma das minhas novelas favoritas! Mas, a justificativa está justamente nessa resenha: a novela TEM TUDO!

  3. Lucas

    Eu também sou suspeito pra falar dessa obra-prima! Vi em 1999, partes da primeira reprise e alguns capítulos nesta reprise mais recente. Amei e me emocionei com este elenco. Ainda bem que (como sempre), não deu certo fazer com Thalia e/ou Vero Castro, pois teria se tornado um dramalhão rosa e sem limites, facilmente. Às vezes, tenho vontade de falar pra Delia Fiallo: tá insatisfeita? pára de vender seus textos ué! Mas ao mesmo tempo, os originais são tão bons, que penso: não pára não! Hehehehe!

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Então, acho bem legal reclamar estando com uma fortuna no bolso. Se ela acha que a sua obra é intocável, passe fome e não as venda. Reclamar publicamente sem a menor falta de ética, falando mal da aparência dos atores é de um mau gosto profundo.

  5. Diogo

    ela poderia renovar com uma clausula cobrando fidelidade ao texto original…

    eu sei q ela reclamou..e nem vi cristal pra julgar….mas o privilégio de amar é uma das minhas novelas favoritas….trama emocionante…muitos personagens marcantes…

    uma coisa q achei estranho na época foi a “semana das lembranças”…hoje acho q jamais a televisa faria isso…

    um dos grandes elencos q a televisa já reuniu

  6. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Hoje em dia a disputa pela audiência está tão acirrada que seria difícil uma “semana de lembranças” numa novela. El Privilegio de Amar teve isso em função das festas de Natal. Mas fora do México, ou mesmo em reprises por lá, ficou uma semana inteira com acontecimentos antigos na novela. De fato, esse foi um dos melhores elencos já reunidos para uma novela. Só feras, Adela Noriega, Helena Rojo, Cynthia Klitbo, César Évora, Enrique Rocha, Sabine Moussier, Marga Lopez, René Strickler, etc.

  7. nanda

    Eu so vi a novela o ano passado que pena sou jovem né mas realmente muito boa não sei se o mais novo remeik triunfo do amor ficou tão bom mas confesso que o fim de o privilégio de amor foi incrível muito legal e a abertura da novela apresentava todos os personagens Helena Rojo e adela noriega arrasaram mas eu vi cenas de maite perroni e vitória rufo confesso que achei muito mais convincente que de o privilégio. eo casal rene e adela não gostei ele eé muito fraco não e bonito pode ser bom ator mas não pra protagonista.
    mas com erros e acertos foi uma novela gostoaa de se ver.

  8. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Talvez seja o choque de gerações, mas pra mim El Privilegio de Amar é uma das melhores novelas que a Televisa já fez. É uma das mais completas, onde os personagens fluem, e as atuações da Adela Noriega e da Helena Rojo são maravilhosas.

  9. nanda

    Além ne Thiago que privilégio de amor e umas das maiores audiências da televisa desde que começaram a contabilizar.

  10. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Sim, tá difícil aliás alguém superar a audiência de El Privilegio de Amar, mas é como no Brasil… A internet e os outros meios acabaram dissipando um pouco a audiência da TV aberta.

  11. Amanda

    Acho el privilégio de amar uma linda novela e triunfo del amor acho uma novela legal mas também um pouco chata só gosto na verdade pq tem a Maitê, apenas isso

  12. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    El Privilegio de Amar é uma das novelas mais incríveis e completas que eu assisti. Triunfo del Amor ficou devendo e muito. O curioso é ter dito exatamente a mesma adaptadora.

  13. Leandro Moura

    Novela maravilhosa e inesquecível! Assisti a reprise picotada de 2008 e me apaixonei! Carla Estrada é uma verdadeira mestra das novelas!
    Quanto à Delia Fiallo, se ela não gostou de O Privilégio de Amar, que foi uma versão perfeita, ela teria um verdadeiro infarto se visse Triunfo del Amor: Victoria ficou ainda mais chorosa, a Bernarda (Ana Joaquina) ficou ainda mais louca, entre vários outros problemas kkkkkkkkkkk.

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