[2007] Pasión

O desgaste das produções de época na parceria entre a produtora Carla Estrada e a escritora María Zarattini chegou ao seu ponto máximo nessa novela que apesar muito bem realizada, ostentou o título de grande fracasso: Pasión.

Na história, Camila (Susana González) e Santiago (Sebastián Rulli) vão se casar e celebram seu compromisso. O dono do povoado, Don Jorge (Juan Ferrara), como senhor feudal, deseja consumar seu “direito da primeira noite” e captura Camila. Porém, ela não acontece, já que embriagado, Don Jorge adormece e Camila foge. Para não ficar mal, Don Jorge obriga Camila a mentir que a noite foi consumada. Dias depois, Camila é capturada por bandidos. O capitão da embarcação é o pirata “Antillano” (Fernando Colunga), que se sente atraído por ela. Vendida para Don Timoteo (German Robles), Camila termina casada com este ancião, que morre em seguida. De volta ao povoado, dona de uma grande fortuna, Camila descobre que todos a deram por morta, e que Santiago se casou com sua irmã. Além disso, os parentes de Don Timoteo contestam que Camila seja a herdeira da fortuna, e é quando Ricardo aparece para cobrar a herança. Camila se dá conta de que Ricardo é justamente o “Antillano”. E entre os dois surge a mais profunda paixão.

PASION-06Depois de Amor Real, em 2003, Carla Estrada encontrou no segmento de época um caminho para se superar tecnicamente a cada nova novela. E ela conseguiu. Da trilogia, Pasión foi a mais bem realizada, em quanto a cenários, cenas externas, efeitos especiais e iluminação. Porém, descuidou-se dos textos. Nem Alborada, muito menos Pasión, cativou tanto o público como Amor Real.

Além do cansaço natural, entre 2003 e 2007, somavam-se três novelas esteticamente muito similares, e com vários traços na história em comum, Pasión tinha uma história bastante truculenta, que acabou afastando o público. Embora mais romântica que Alborada, Pasión pegou pesado nas tintas sexuais. O “direito da primeira noite” foi amplamente discutido. Ele dizia que o senhor feudal tinha direito a desvirginar a noiva antes da noite de núpcias do casal.

Mas na realidade, esse “direito da primeira noite”, historicamente, nunca teve sua existência comprovada. Mas ok, novela é novela, e tudo é permitido. O grande porém é que o sexo foi demasiado e tratado de maneira aberta. Discussões nuas e cruas sobre impotência sexual que provavelmente eram incabíveis no vocabulário de uma donzela no México Colonial apareciam normalmente nas falas da novela.

PASION-02Além disso, novamente Maria Zarattini pecou na agilidade da história. Após um começo forte e vigoroso, quase um terço de novela baseou-se na busca por uma carta que poderia salvar Camila de perder a fortuna de Don Timoteo…E nada da carta aparecer. Apesar dos pesares, Pasión era uma novela inédita, original e consistente. Com conflitos bem delineados, personagens bem construídos e direção de atores impecável.

O elenco de Pasión foi uma novela a parte. Depois de rumores de que Adela Noriega ou Silvia Navarro viveriam Camila, Susana González foi a escolhida. Depois de trabalhos anteriores de gosto duvidoso, Susana recebeu uma nova oportunidade para protagonizar uma novela, ainda por cima, às 21h, de época e com Carla Estrada. Mesmo com inúmeras críticas, a atriz não se abalou e conseguiu defender sua personagem com dignidade. Sem brilhantismo, mas com firmeza.

PASION-04Fernando Colunga teve aqui um personagem melhor que em Alborada. Ricardo era menos presunçoso, mais sofrido, mais introspectivo. Uma espécie de Juan del Diablo renegado, o “Antillano” era o pseudônimo do herói romântico. Uma interpretação correta. O incômodo era ver Colunga em três trabalhos consecutivos de época. A sensação de déja vu era forte demais, e fez com que o ciclo se encerrasse. Aliás, o elenco das três novelas – Amor Real, Alborada e Pasión – tem vários nomes em comum!

Pasión trouxe o retorno de Daniela Castro após 6 anos longe da TV. A expectativa era grande, pois Daniela já não seria a protagonista da história. Além disso, viveria uma vilã cega! Mas Lisabeta demorou a brilhar na história. Um personagem complexo, até a primeira metade surgiu mais como vítima que como vilã. A voz excessivamente rouca da atriz, em função do cigarro, acabou marcando os gritos histéricos de Lisabeta.

PASION-03O grande vilão da novela acabou sendo mesmo Alberto, o braço direito de Don Jorge. Impiedoso, cruel, vingativo e obsessivamente apaixonado por Lisabeta, o papel fez José Elias Moreno chamar a atenção dentro da novela.

Juan Ferrara, após três anos a disposição da novela juvenil Rebelde, voltou a figurar numa trama adulta. E fez um bom trabalho como o vilão Don Jorge. Seu núcleo também era composto pelas boas interpretações de Mariana Karr, Maya Mishalska e um inusitado retorno à Televisa de Gabriela Rivero que, estando gordinha, era uma espécie de alívio cômico dentro da novela.

Outra que voltava às novelas depois de anos de ausência era Rocío Banquells. Nos anos 90, a atriz batalhava para que saísse dos papéis de vilã, mas a empresa não via nela uma protagonista. Somado a isso, seu marido queria que ela investisse na carreira como cantora. Esses elementos geraram sua saída para a TV Azteca, onde atuou em um grande fracasso de audiência. Sua volta à Televisa se deu em Pasión, vivendo a sofrida Ofélia, que guardava o segredo de Santiago ser filho de Don Jorge. Mas, apesar da interpretação da atriz, a novela não deu certo, e os trabalhos seguintes voltaram a fazer de Rocío Banquells a vilã da história.

A novela representou um grande momento para Germán Robles, numa participação mais que especial como Don Timoteo. Um velho asqueroso e solitário, que chegou a gerar alguma simpatia do público. Mesmo tendo aparecido menos de 10 capítulos, sua atuação foi marcante.

PASION-08A grande revelação da novela foi a atriz Marisol del Olmo. Ela já tinha uma carreira de anos, sempre em papéis pequenos. Em Pasión, foi Jimena, a melhor amiga de Camila. Uma mulher valente e que não se detinha diante de nada. A oportunidade gerou o reconhecimento que há anos a atriz buscava.

Sebastián Rulli não teve um bom papel. Santiago começou forte na novela, mas foi perdendo espaço, enveredou para a vilania, e acabou como monge. Um papel que nunca rendeu o esperado. Era como se tentassem de tudo com o personagem, e o papel nunca vingava.

Agora, ninguém causou tanto frisson quanto William Levy. O ator cubano já era um galã em ascenção em novelas produzidas em Miami quando Carla Estrada botou seus olhos nele. Moveu tantas influências, que o tirou do elenco da novela Acorralada na metade para trazê-lo ao México. William foi Vasco, o problemático irmão de Camila, que viveu uma bonita história de amor com Inés (da sempre competente Kika Edgar). A beleza de William Levy impressionou tanto que ele logo viraria protagonista na emissora. Além disso, dizem que nos bastidores, Fernando Colunga, acostumado aos holofotes, não gostou muito do burburinho que William Levy gerou na imprensa.

PASION-07Dessa vez não foi apenas Maty Huitrón, mãe de Carla Estrada, que atuou na novela. Ela era Francisca, que tentava manipular Lisabeta de acordo com os seus interesses. A produtora deu oportunidade ao filho, o adolescente Carlos López Estrada, de ter um papel de destaque. Ele era Cláudio, que também havia sido sequestrado por piratas como Camila e Jimena no começo da história.

Como dito anteriormente, aqui Carla Estrada esmerou-se muito na produção, na iluminação principalmente, que superou os percalços de Amor Real e Alborada. Mas pecou – e muito – nos penteados. Praticamente todos eram equivocados. Camila parecia usar peruca até a metade da novela, quando encontraram um penteado adequado para a protagonista. Juan Ferrara pagou mico com seu visual. Sebastián Rulli, sempre desgrenhado. José Elias Moreno, com visual engraçado para um vilão. Mariana Karr, com cabelo irreal, entre outros.

PASION-05As últimas semanas de Pasión fizeram a novela se movimentar em um rumo emocionante. O final de Alberto, com a cabeça cortada, foi dos mais chocantes. Don Jorge, arrependido, acabou morrendo. E o amor entre Camila e Ricardo, triunfou. A audiência foi subindo gradativamente. Mas a emissora já não acreditava na novela, e a moveu para o horário das 22h para que a substituta, Fuego en la Sangre, estreasse mais cedo. De certa maneira, a estratégia deu certo. Os últimos capítulos de Pasión experimentaram um grande crescimento de audiência.

Mas como todo ciclo, a “trilogia” não planejada de época acabou se encerrando. O cansaço do gênero acabou fazendo o público dar as costas para a boa história que Pasión apresentou. Um motivo e tanto para Carla Estrada se reciclar nos próximos trabalhos.

Confira abaixo um vídeo com o elenco da novela!

13 comentários sobre “[2007] Pasión

  1. Lucas

    Eu vi esta novela na CNT, com aquela dublagem sofrível. Mesmo assim gostei e foi justo a parte da busca pela carta que mais gostei. O começo achei desinteressante, violento e apelativo. Foi um elenco de destaques, principalmente os regressos citados na crítica. Eu recomendo Pasión!

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    A novela começou um pouco chocante, e acho que isso afugentou o público, uma pena! Só de ser uma novela inteligente, original, merecia mais!

  3. Luccas Villela

    AMO a Rocío Banquells, principalmente como cantora, acho ela sensacional, não sabia que ela tinha tido um passado fracassado na Azteca. Coitada 🙁 Sorte que o veto da Televisa chegou ao fim, ela merece se reerguer.

    Sempre impliquei com essa novela, mas esse texto me deu vontade de ver.

    Não sabia que a Carla tinha tirado o Levy de ACORRALADA, até o capitulo que eu assisti, ele ainda estava. Que horror.

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    PArece que ao final de Acorralada, ele retornou, bem nos últimos, até porque Pasión não foi tão longa, haja o custo de produção.

  5. Diogo

    é uma novela boa…achei o visual de alguns personagens um tanto exagerado…mas acho que o gênero tava um tanto desgastado…acho q, embora as novelas se passem em épocas diferentes…essa trilogia de época da Carla estrada…se vc colocar no mudo, não sabe diferenciar qual é qual…

  6. Marilise Milesi

    Amei esta novela, já assisti por duas vezes, uma pela cnt e depois pelo yutube. Personagens riquissímos , trama envolvente. Brilho especial a Fernando Colunga, perfeito!!!!

  7. Marilise Milesi

    Amei esta novela. Assisti por duas vezes, uma pela CNT e outra sem dublagem pelo yutube. Lindo e mais emocionante ouvir na língua original. Trama envolvente , personagens originais e atores excelentes. Destaque especial a Fernando Colunga, que interpretou mais uma vez com maestria. ADOREI!!!

  8. Giovana Brandão Pereira

    Eu gostei muito de todas as novelas de Fernando Coluna. Gosto tanto que eu olhei mais de 10 vez todas as suas novelas.

  9. Glaudenia

    Desculpe,mas tenho que discordar da crítica sobre a novela Alborada. Como telespectadora achei a novela perfeita. E o melhor foi ter uma rica continuação após o casamento de Luís e Hipólita. Para mim,o personagem do Fernando foi mais romântico,mais compreensivo e mais apaixonado doq o Manuel de amor real. Vou assistir pasion,mas considero Alborada perfeita e não vejo a hora do SBT comprar seus direitos para podermos contemplar. A trilogia é muita rica e de qualidade. Amor real foi apaixonante e Alborada me fez chorar em muitos momentos. A morte de Martin, de Antônio, Joana, e até mesmo nas vezes em que Lucero se doava em cena para interpretar Hipólita defendendo sua cria como uma loba,foram elementos que me fizeram prender a atenção e parar os meus afazeres domésticos para descobrir o desfecho do Conde de Guevara. Daniela Romo foi sensacional e soube ser uma vilã como poucas, e sem precisar ir aos extremos.Sou muito fã de novelas de época e para o meu gosto tudo foi perfeito. Amor real,Alborada e agora assistindo Pasion.

  10. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Claro, Glaudenia, acho super válido você discordar da coluna! Toda opinião aqui é bem-vinda, principalmente se você assistiu a novela inteira. Assim as pessoas conhecem mais sobre a trama, que, como disse na coluna, na minha opinião, foi muito boa, mas faltou paixão, e houve aquele momento de perda de memória que achei meio pra enrolar. Tirando isso, achei a trama da novela muito forte, complexa, diferente…

  11. Keyla

    A única coisa ruim dessa novela foi o estupro da Camila. altamente desnecessário. a protagonista é sagrada e ñ é para ser “violada”. e é novela como disseram… kkk como falaram acima as cenas de violência no inicio afastaram o público. dá muito nojo aqueles homens nojentos e olhe que nem mostraram. só vi mesmo por causa do Fernando e da Susana, pois gosto desse casal.

  12. JOANA

    ALBORADA TEM UMA HISTORIA LINDA E APAIXONANTE .AMEI!MAS DO QUE BEIJOS ARDENTES A NOVELA TRAS UMA LINDA HISTORIA DE AMOR DE UM CASAL APAIXONADO EM PLENO PERIODO DA INQUISIÇAO ONDE TUDO ERA CONSIDERADO PECADO . AS RIGIDAS REGRAS DA IGREJA CATOLICA CONTROLAVA A VIDA E OS SENTIMENTOS DAS PESSOAS .AS MULHERES NAO TINHAM VIDA PROPRIA ERAM CRIADAS PARA OS AFAZERES DOMESTICOS E PARA REPRODUZER.

  13. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Keyla, uma divergência sobre seu comentário. Concordo que o estupro da Camila em Pasión foi desnecessário porque não contribuiu em nada pra história. Digo, a intenção era mostrar o quanto ela já tinha sofrido… Mas mesmo sem isso, o sofrimento dela já era gigante… Agora, não acho que a protagonista seja “sagrada”. Em algumas histórias, o estupro (da protagonista) é parte fundamental do enredo… “El Manantial” prova isso. Naquela ocasião, também foi uma novela forte, mas o contexto justificava esse estupro era um GRANDE impedimento para o amor dos protagonistas. Ou seja, vai muito do que a história pede…

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