[1997] Maria Isabel

Sabe quando as pessoas dizem que toda novela mexicana é um clichê sobre uma empregada que apaixona pelo patrão? Sabemos que quase nenhuma novela é sobre isso, mas Maria Isabel, de 1997, seria um desses casos.

Na história, desde pequenas, Maria Isabel (Adela Noriega) é a melhor amiga da rica Graciela (Ilse),é filha do poderoso Félix Pereira (Jorge Vargas). Maria Isabel vive com seu pai Pedro (José Carlos Ruiz) e sua madrasta má Chona (Monica Miguel). Sua vida muda quando sua amiga Graciela se apaixona por um engenheiro, despertando a fúria de seu pai, que trama a morte do rapaz. Grávida, Graciela vai embora do povoado junto a Maria Isabel. Padecendo de um problema cardíaco, Graciela morre pouco depois de dar a luz. Antes, ela faz Maria Isabel criar sua filha como se fosse sua. Depois de inúmeras dificuldades, a índia Maria Isabel chega a casa de um engenheiro milionário chamado Ricardo Mendiola (Fernando Carrillo), que será o amor da sua vida.

BLOG_ISABEL01Baseada na obra imortal de Yolanda Vargas Dulché sobre uma índia cujo destino havia sido criar a filha de sua melhor amiga, tornou a triunfar numa nova e atualizada versão, sob a produção de Carla Estrada, que vinha de sucesso em sucesso, e com adaptação do já falecido René Muñoz. Maria Isabel surgiu como uma história impressa, que era publicada semanalmente na revista Lagrimas y Risas, de onde outras histórias de Yolanda Vargas Dulché também haviam saído, como Rubi, por exemplo.

A história já havia rendido duas versões memoráveis. Na TV, em 1966, com Silvia Derbez vivendo a protagonista, e no cinema, com Silvia Pinal. Ambas foram grandes sucessos, porque demonstrava a marca de uma boa novela mexicana: era a história da Cinderela, mas aqui, com o traço típico da personagem mais genuinamente mexicana possível… uma indígena! Buscar essas raízes do melodrama nacional foi um dos fatores que motivou Carla Estrada, em 1997, a retomar a clássica versão e modernizá-la.

Com dois pilares simples: o amor impossível, e o drama de uma mãe que sofre porque sua filha se envergonha dela, bastou para a história virar um símbolo no México. Era impossível não se encantar com a novela, que nunca precisou apelar para violência para manter a audiência nas alturas. A novela passa por várias etapas e o casal Maria Isabel e Ricardo leva muitos anos para finalmente se acertar

MARISABEL-04Na primeira, o mais forte é o clima indígena do povoado de Nayarit, bem como seus costumes, e os conflitos com Don Félix Pereira. Por conta disso, o casal principal demora um pouco a se encontrar. Logo depois, Maria Isabel vai embora do povoado com Graciela, que dá a luz a Rosa Isela e morre. Com isso, a novela entra numa nova etapa, onde Maria Isabel vai de emprego em emprego, enfrentando inúmeras dificuldades (acusações de rouba, tentativa de abusos, etc) para conseguir trabalho sendo índia, e com uma criança pequena (que ainda por cima era loira – o que gerava alguma desconfiança).

Somente depois surge o gancho principal da história: Maria Isabel trabalhando na mansão Mendiola, e conhecendo Ricardo. O amor entre os dois vai surgindo bem lentamente, apesar de Maria Isabel ser apaixonada pelo patrão. O clima de conto de fadas, junto a química em cena entre Adela Noriega e Fernando Carrillo, serviu para que o casal ganhasse uma enorme torcida.

A etapa seguinte chega, com Rosa Isela (Ximena Sariñara) já crescida, e renegando a mãe a todo instante, cegada pela ambição de ser nota de um homem rico. Mas é justamente quando Rosa Isela descobre que Félix é seu avô e abandona Maria Isabel, que Ricardo se descobre apaixonado e se casa com ela. Enquanto Rosa Isela sofre com o jeito do avô, Maria Isabel vive uma lua-de-mel com Ricardo.

BLOG_ISABEL03Outra trama de destaque é a da rebelde Glória (Paola Otero), a filha de Ricardo. Menina enjoada, caprichosa e prepotente, come o pão que o diabo amassou ao se apaixonar pelo rebelde Gilberto (Rodrigo Vidal), que depois que a tira de casa, somente a trata mal. É quando surge o bondoso Ramón (Abraham Ramos), um mecânico que aceita Glória e sua pequena filha, e a ensina a ser mais humana. Glória, inclusive, depois de tanto desprezar Maria Isabel, vira sua aliada.

O tema de filhos que rejeitam mães é sempre garantia de sucesso, talvez pela imagem da mãe ser sagrada na cultura latina. Alguns momentos inesquecíveis: quando Maria Isabel oferece sua virgindade para um playboy que – num primeiro momento – tentou abusar dela, mas depois salvou sua filha; o dia das mães na escola onde Rosa Isela ainda criança diz para as amigas que ela é a empregada; quando Maria Isabel vende suas tranças longas para pagar um carrinho de brinquedo que a filha pequena quebrou na casa de Ricardo.

Na fase final da novela, ainda surge a trama de Mireya (Sabine Moussier), um antigo amor de Ricardo. Ela é uma pianista famosa, o que causa ciúme em Maria Isabel, que se considera inferior a ela, e decide aprender a tocar também. Mireya é agenciada por sua irmã, a possessiva Débora (Emoé de la Parra), amante de Gabriel (Sergio Basañez), um aproveitador. Ricardo acaba seduzido pelo charme de Mireya e a trai. Quando Maria Isabel descobre, não o perdoa, e se refugia em seu povoado, até que no último capítulo, decide perdoá-lo.

MARISABEL-02Na época, René Muñoz, que adaptava a novela, pensou em colocar Maria Isabel na cadeia suspeita pelo assassinato de Gabriel. Yolanda Vargas Dulché, ainda viva, se opôs totalmente, e sua vontade foi respeitada. Esse não era o primeiro conflito entre o adaptador e a autora original da trama. Yolanda Vargas Dulché declarou que Maria Isabel era, entre suas novelas, a sua favorita, e que por isso, tinha grande dificuldade em aceitar mudanças na obra. Ela mesma alega ter sido convencida pela produtora Carla Estrada a aceitar alguns ajustes, como o caminho percorrido por Maria Isabel para chegar até a mansão Mendiola, para dar agilidade à novela. A autora era taxativa: não queria que modernizassem a novela, apenas que ela fosse adaptada à realidade dos anos 90.

No lançamento da novela à imprensa, já era público o desentendimento entre Yolanda Vargas Dulché e René Muñoz, mas na ocasião, os dois já haviam declarado que estavam entendidos sobre o tema. Mas os problemas prosseguiram. René Muñoz, em entrevista, afirmou que esta havia sido sua novela mais difícil, justamente pela extrema dificuldade de lidar com a autoria original em seu pé. Segundo ele, era uma tarefa titânica trazer a atualidade esta história, com tantos obstáculos colocados por Yolanda – que questionava praticamente tudo. Porém, o autor garantia que, mesmo com as mudanças, a novela estava em primeiro lugar de audiência, e que era um sucesso de público e crítica.

O autor ainda argumentava que, caso ele acertasse na adaptação, quem receberia méritos seria Yolanda Vargas Dulché. Caso o remake fracassasse, caberia a ele a responsabilidade. Mas a novela foi um grande sucesso, mesmo quando a imprensa noticiava que a história era mais que conhecida, e que ainda assim, conseguiu conquistar a audiência outra vez. E a história era conhecida mesmo. Pra se ter ideia, na versão original de 1966, as mulheres que não sabiam ler e escrever, se inspiraram no exemplo da novela, e buscaram condições para estudar, justamente para poder comprar a revista onde saía Maria Isabel e assim saber o que viria a acontecer nos próximos capítulos da novela!

MARISABEL-01Mas, apesar de René Muñoz ser um adaptador, muito habilidoso, um dos pontos negativos foi que, por ser uma novela curta (60 capítulos), o adaptador usou um elevado número de personagens, em subtramas totalmente sem destaque. Eles tinham a função de fazer personagens de passagem. O problema é que alguns apareciam, contracenavam com Maria Isabel, e depois seguiam na história sem função alguma. É como as personagens Iris (Ana Luísa Peluffo) e Eugênia (Bertha Moss), duas megeras exploradoras para quem Maria Isabel trabalhava no começo da história. Quando elas surgiam, eram divertidíssimas, e renderam grandes momentos. Num deles, a índia arranca um tufo de cabelo de uma das peruas ao ser acusada de roubo. Mas depois, ela saía do emprego, e as personagens seguiam na novela, ocasionalmente aparecendo como amigas de Rosaura, tia de Ricardo. Ou ainda a trama de Josefina (Yadhira Carrillo) e Antonio (Valentino Lanus, na época, Valentino Mazza), ela índia, e ele o prometido de Graciela. Num primeiro momento, ambos enfrentaram preconceitos para estarem juntos, depois mostrava a dificuldades do casamento, até que perdiam um filho, e depois, quase sumiam da novela.

Uma ação interativa entre Maria Isabel e a novela Desencuentro, atração das 8 da noite que estava no ar paralelamente aconteceu no capítulo onde a oficina mecânica de Ramón se incendeia e quem apaga o fogo era o bombeiro Luis, personagem vivido por Ernesto Laguardia naquela novela. Alguns “crossovers” como esse são bastante comuns em novelas mexicanas.

BLOG_ISABEL02Reza a lenda que Adela Noriega, em 1997, estava vetada na Televisa, porque anos atrás, havia recusado alguns projetos. Mas o sucesso da novela Guadalupe, em 1994, realizada em Miami, foi motivo suficiente para trazê-la de volta num dos papéis que marcou sua carreira. Cada gesto, palavra, junto ao figurino huichol (a tribo indígena), serviram para que ela desse a Maria Isabel uma interpretação perfeita, que lhe trouxe inúmeros prêmios e reconhecimentos.

Fernando Carrillo foi uma novidade na TV mexicana. Galã consagrado na Venezuela, finalmente chegava a Televisa em horário estelar. Sua passagem pela emissora foi bastante conturbada. Lilia Aragón, que vivia a Rosaura, relata o quanto Fernando Carrillo era problemático. Além disso, houve um rumor forte alimentado por Fernando, de que ele namorou Adela durante as gravações. Apesar disso, Fernando Carrillo tinha uma presença forte. Era bonito e carismático, ainda que não fosse exatamente um grande ator. Novamente, o ator sofria certo ataque por não ser mexicano e estar protagonizando uma novela no México. O ator ainda viria a ser astro de mais duas novelas no país.

No elenco, ainda merecem destaque: José Carlos Ruiz, perfeito como Pedro, sempre brilhante na composição de homens simples. Cabe comentar que na versão de 1966, com Silvia Derbez, ele fez o mesmíssimo personagem. Ele fez par com Monica Miguel, que também era uma das diretoras da novela, que igualmente brilhou com a divertida e interesseira Chona. Patricia Reyes Spindola – outra índia, Manuela, apaixonada por Félix – foi outro destaque. A atriz conta que foi sugestão dela que Manuela vivesse com um lenço para acalmar os calores da menopausa. Entre os destaques negativos, vale lembrar a interpretação sempre over da oxigenada Lorena Herrera como Lucrécia, uma golpista. Era difícil de acreditar que Ricardo engoliria uma mulher tão nitidamente vulgar se passando por boa e decente.

MARISABEL-03Foi a primeira novela onde Sabine Moussier teve um papel de destaque: a pianista Mireya. Emoé de la Parra, que vivia Débora, a irmã de Mireya, era interpretada pela filha da autora original Yolanda Vargas Dulché. A hoje cantora pop Ximena Sariñara foi Rosa Isela na etapa mais relevante da novela e teve uma impressionante atuação para sua precoce idade. Para viver Graciela, foi convocada a cantora Ilse, que fez parte do grupo Flans, mas sua carreira como atriz não foi adiante, ainda que ela tenha se saído relativamente bem nesta primeira experiência.

No ano de 1997, a TV Azteca lançou Mirada de Mujer, sua novela de maior sucesso até hoje, e mesmo assim, Maria Isabel manteve-se firme no confronto, garantindo o primeiro lugar de audiência, mesmo quando a imprensa queria enaltecer as novidades da trama da TV Azteca em contraponto ao tradicionalismo da atração da Televisa. E de fato, Mirada de Mujer e Maria Isabel eram atrações totalmente opostas. A primeira, moderna e com um tipo de história que era antagônica ao clássico da Cinderela que Maria Isabel apresentava.

A novela contou com gravações por vários países da Europa, durante a lua de mel de Ricardo e Maria Isabel. Esses capítulos foram ao ar durante as festas de fim de ano, época que a audiência cai drasticamente na TV como um todo. Isso mostrou o esmero da produção em apresentar uma novela bem feita para os padrões da época. Nesse sentido, merece destaque o figurino da tribo huichol, e em especial o usado por Adela Noriega. Eram mais de 60 peças de roupa, quase todas originais, para valorizar o artesanato e o trabalho indígena. Assim, que a maior parte das peças era simplesmente ajustada ao tamanho dos atores.

O belíssimo tema musical, Si Tu Supieras, cantado por Alejandro Fernandez, lançou-o como cantor de sucesso na época e foi com certeza inesquecível. Luis Miguel e Enrique Iglesias foram as primeiras opções de Carla Estrada como tema de abertura, mas não chegaram a um acordo. Para que Alejandro Fernandez aceitasse cantar, o cantor – que na época pensava numa projeção internacional – pediu que o nome de sua canção virasse o subtítulo da novela. E assim aconteceu, Si tu Supieras…Maria Isabel.

Um êxito, e mais que isso, uma novela marcante, singela, bonita, bem feita e encantadora, Maria Isabel merece ser vista muitas e muitas vezes.

Confira abaixo um vídeo que eu mesmo editei com o elenco da novela!

7 comentários sobre “[1997] Maria Isabel

  1. Lucas

    Essa novela é um encanto! Adela Noriega divina e Fernando Carrillo muito sedutor. Tão sedutor, que em um momento, em que ele não teria motivo nenhum pra trair a Isabel, acaba se envolvendo com a Mireya hehehehe! A única coisa sem cabimento nessa novela, ao meu ver. Ainda assim, essa trama vale muito a pena. Existem duas formas de você contar uma novela rosa: ou de um jeito sem graça e previsível, ou do jeito classudo, que só experts como Carla Estrada sabiam fazer. Sdds dessa produtora!

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Então, naquele momento, a “justificativa” pra traição é que a Mireya era refinada e a Maria Isabel não…Ainda assim, foi sacanagem! Maria Isabel era verdadeira e leal e não merecia traição! A novela, concordo com vocÊ, é um encanto total.

  3. Felipe Rodriguez

    Me lembro vagamente dessa novela, eu adorava, gostaria que o SBT a reprisasse pois a novela é ótima, mas de fato como não se encantar com essa belíssima trama? Adela Noriega esbanjou talento como a índia Isabel, uma novela rosa muito charmosa e que mostrou todo o seu brilho, uma pena que a novela tenha sido tão curta, mas isso não a impediu de fazer o sucesso que fez e ainda competindo na época com o fenômeno da Tv Azteca “Mirada de Mujer”.

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Maria ISabel é pra mim, uma das novelas mais encantadoras já feitas. Curta, sim, mas consistente! Mesmo se apegando nos elementos mais básicos do folhetim, foi um produto bem feito, muito bem atuado e com um casal que não tinha como não torcer.

  5. João Vitor N. Mendes

    A Adela consegue ser perfeita em todos os seus trabalhos, uma atriz completa! Maria Isabel não é uma das minhas preferidas porque não sou muito fã das tramas rosas, mas esssa consegui ver sem me entediar, mas o galã poderia ter sido outro, acho o Carrillo um dos piores atores, não gostei de nenhuma das duas novelas que vi com ele! E curioso este fato da imprensa “sabotar” uma novela da Televisa e favorecer uma da Azteca, apesar de Mirada De Mujer ser uma das minhas novelas prediletas!

  6. Leandro Moura

    Essa novela, sem sombra de dúvidas, é uma de minhas preferidas! Tinha uma trama cativante, que prendia do começo ao fim, além de atuações simplesmente perfeitas. A trama de Graciela e Rosa Isela foram as mais marcantes pra mim. Sem contar que eu também gosto da história de Glória e do romance entre Maria Isabel e Ricardo.
    Já no lado negativo, a Lorena Herrera foi a pior coisa dessa novela. Ele é daquele tipo de atriz que vc não sabe se está interpretando ou sendo ela mesma. Além de ser a vulgaridade em pessoa, era uma atriz pavorosa de tão ruim. Ainda bem que não durou mto tempo.
    O “sumiço” dos coadjuvantes também era algo que incomodava bastante. Várias histórias acabaram ficando pela metade. Por outro lado, a trama da Sabine Moussier era 90% dispensável. O segredo da irmã dela e o assassinato do Gabriel foram recursos absolutamente desnecessários que só serviram pra esticar os capítulos. E sinceramente, nesse ponto até entendo a revolta de Yolanda Vargas Dulché. O que iria agregar à história colocar Maria Isabel atrás das grades?
    Acho que até mesmo por causa desses conflitos com a autora, achei o final meio estranho e fora de sintonia com o resto da novela. Já perto do final, resolveram trocar o René Munhoz pela Liliana Abud, que transformou o Félix de um simples antagonista em vilão diabólico da noite pro dia, fez o Ricardo tomar um tiro e ficar à beira da morte, “enlouqueceu” a Manuela e várias outras incongruências que QUASE estragaram o resultado final.
    Apesar de todos esses problemas, essa novela foi um encanto e, pra mim, já é um clássico das telenovelas.

  7. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Essa transitoriedade dos personagens é bem típica dos livros, Leandro. Tanto que alguns coadjuvantes (como a trama da Yadhira Carrillo com o Valentino Lanus) seguiam na trama, mas meio avulsos.
    Também acho a Lorena Herrera algo que compromete a boa qualidade do elenco da novela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *