[1986] Cuna de Lobos

Um marco na teledramaturgia mexicana, Cuna de Lobos foi indiscutivelmente a novela mais revolucionária já produzida na Televisa, um fenômeno que entrou para antologia e marcou gerações.

Na história, Catalina Creel de Larios (Maria Rubio) é a matriarca de um grande clã, quando mata o marido envenenado. Don Carlos (Raul Meraz) havia descoberto um terrível segredo da esposa. Seus filhos, José Carlos (Gonzalo Vega) – de um casamento anterior – e Alejandro (Alejandro Camacho) disputarão a herança do pai. Mas uma cláusula compromete os planos de Catalina, que deseja ver seu filho legítimo como único herdeiro: a fortuna dos Larios será somente daquele que tiver um filho primeiro, e a esposa de Alejandro, Vilma (Rebecca Jones) não consegue ter filhos. Para resolver esse problema, Alejandro seduz e envolve a ingênua Leonora (Diana Bracho) em uma boda falsa. Grávida, nem desconfia que ao dar a luz, Alejandro e Vilma, já com a cumplicidade de Catalina, pretendem roubar a criança e criar como filho legítimo do casal. Até lá, misteriosas mortes acontecem ao redor da família, todas provocadas por Catalina em sua sede pelo poder.

CUNA-01Genial produção de 1986, sob a produção de Carlos Téllez e com história original de Carlos Olmos, Cuna de Lobos teve todos os elementos de um grande thriller policial: suspense, ação, heróis improváveis e uma inesquecível vilã. Os elogios não foram poucos, e nunca foram exagerados: Cuna de Lobos foi uma grande telenovela. Incomum porque rompeu com o esquema da novela tradicional rosa; inovadora, porque trouxe outro tipo de protagonistas; e referencial, porque instituiu um novo ritmo de contar histórias, com cenas mais rápidas e ação mais latente. Foram 170 capítulos de meia-hora. O suficiente para marcar a história da TV mexicana.

Mais do que uma história apenas de consecutivos assassinatos, Cuna de Lobos respeitou o público telenoveleiro ao propor uma história controversial sobre o amor de mãe por seus filhos, sejam elas justiceiras (Leonora), trágicas (Vilma) ou matriarcais (Catalina).

A inspiração para a vilã mais emblemática e recordada da dramaturgia mexicana partiu do filme O Aniversário (1968), protagonizado por Betty Davis – também recordada por seus papéis como vilã. Naquele filme, Betty Davis usava um tapa-olho, que viria a ser a marca registrada de Catalina Creel – sempre combinando com a estampa de sua roupa!

CUNA-02O interessante de Cuna de Lobos está justamente no perfil dos seus personagens principais. Os “heróis” Leonora e José Carlos demoram para se formar como um casal apaixonado na trama, e ela começa a novela como inocente, engravidando do vilão da trama, para apenas depois se tornar uma justiceira sedenta por vingança; já José Carlos é um homem fraco, manipulado por Catalina, e atormentado pela culpa de ter ferido sua madrasta quando era criança com um pião – objeto que Catalina usa para provocar verdadeiro tormento em José Carlos.

O outro casal central era Alejandro e Vilma – que cumpriam o papel de antagonistas. Alejandro era extremamente ambicioso e não duvidava em seduzir e enganar Leonora, e o interessante era que apesar desse envolvimento extraconjugal nunca existiu dúvida de que seu amor por Vilma era sincero – tanto que era o único ponto em que chocava com Catalina. Mas Vilma não podia ter filhos, e no começo da novela, busca desesperadamente uma criança para adotar. Com o tempo, apesar de chegar a se compadecer por Leonora por arrancar o filho dela, não admite perder o pequeno Edgar – nome com o qual ela e Alejandro batizam o filho de Leonora.

Outro núcleo interessante da novela dizia respeito a clínica na qual Leonora foi mantida durante a gravidez. Ela era administrada pelo médico charlatão Dr. Syndell (Ramón Menendez), um austríaco que tinha como comparsa a sinistra Rosalía (Lilia Aragón). Esta foi outra grande personagem da novela. Dura, fria, era uma assassina também, e foi assassinada pela polícia graças a uma armação de Catalina.

CUNA-03Rosalía também era responsável por atender Esperanza (Carmen Montejo), a madrinha de Leonora, e que foi a primeira em descobrir que Alejandro era casado. Ao tentar confrontá-lo, tem um derrame cerebral e por muito tempo é afastada de Leonora, até que esta finalmente encontra a madrinha em uma sequencia emocionante.

O grande segredo da trama era que Catalina não havia perdido o olho neste acidente, e viveu anos alimentando essa farsa para manipular a família. Ao descobrir isso, Don Carlos é envenenado, provocando um acidente de carro onde vem a morrer. No decorrer da novela, outros personagens vão descobrindo este segredo e vão sendo eliminados por Catalina. E aqui, outra referência famosa a Hollywood: Catalina sempre mata usando um sobretudo preto, óculos escuros e peruca loira, tal e qual no filme Vestida Para Matar (1980), do diretor Brian de Palma.

Escudero (Jorge Fegan), o joalheiro que faz um excêntrico olho de vidro envolto em ouro a pedido de Don Carlos para desmascarar Catalina. Mas Escudero flagra Catalina com a fantasia, e descobre a razão da morte de Don Carlos. Catalina o assassina a tiros e José Carlos é incriminado. Quem também suspeita dela é Reynaldo Gutierrez (Carlos Cámara), funcionário da Lar-Creel (a empresa farmacêutica da família), que descobre que Catalina mandou fabricar um veneno. E posteriormente, Bertha Moscoso (Rosa Maria Bianchi), secretária particular de Catalina, a flagra com a fantasia, e começa a temer por sua vida. E Inspetor Suárez (Humberto Elizondo), detetive que investiga os crimes ao redor da família Larios.

CUNA-04O interessante é que apesar de Catalina sempre conseguir eliminar seus inimigos e brilhar como uma temida assassina, o público ia torcendo para que ela fosse desmascarada. E todos esses personagens chegam perto disso, mas Catalina sempre triunfa. Foram 7 mortes no total pelas mãos de Catalina, além de dezenas de enganos, mentiras e trapaças. Algumas são bem antológicas: como a do Inspetor Suárez no último capítulo, empurrado na piscina e eletrocutado com um cortador de grama! A morte da jovem Lucero (Magda Karina) também foi arrepiante. Ela, que abrigava Bertha após esta ser dada como morta – estava desaparecida por medo que Catalina tentasse matá-la novamente – morreu por engano, sufocada com o fio do telefone. Anos depois, os atores divulgaram uma anedota dos bastidores: que Carlos Olmos e Téllez – escritor e produtor – se divertiam e riam ao escrever as cenas de morte e drama.

Outras sequências inesquecíveis: a fuga de Leonora da clínica onde estava quase prisioneira, fugindo de cachorros raivosos na noite de Natal; a perseguição de Bertha e Catalina; quando Catalina enfia uma lança na barriga falsa de Vilma para provar que sua gravidez era uma farsa, a morte de Rosalía, o baile à fantasia na mansão dos Larios (onde Leonora usa o traje de Catalina), entre outras. A cena final, memorável, mostra já anos depois Bráulio – Edgar rebatizado por Leonora – dizendo para o irmãozinho “No soy Bráulio, soy el pequeño Edgar” e brincando com o tapa-olho de Catalina.

CUNA-05Apesar de ser cultuada como um grande fenômeno de audiência do começo ao fim, a novela só pegou fogo realmente quando Leonora tenta fugir da clínica para dar início ao seu plano de vingança, se aproximando e se apaixonando por José Carlos. A partir daí, a novela se tornou o mito que foi. O último capítulo, com o suicídio de Catalina, rompeu vários recordes de audiência e causou um efeito impressionante: as ruas da Cidade do México ficaram completamente vazias para acompanhar os momentos decisivos da história. Catalina havia preparado um acidente no avião da família que levaria Leonora e José Carlos, mas de último momento, Alejandro pede o jatinho para levar Vilma para um tratamento – ela já estava em fase terminal de um câncer. Destruída por haver matado seu filho, Catalina decide morrer para não ser presa.

O elenco da novela se consagrou graças a este trabalho e todos os protagonistas acabaram fazendo inúmeros papéis antagonistas na sequencia. Maria Rubio ficou eternamente marcada pelo fantasma de Catalina Creel. Sua interpretação quase icônica – com uma dose certa de histrionismo – junto a seu porte, marcaram a novela e sua carreira em um verdadeiro antes e depois. Sua interpretação foi tão memorável que anos depois recebeu um reconhecimento como “A Mãe de Todas as Vilãs”. Não era pra menos, em qualquer top de maiores vilãs de todos os tempos, Catalina Creel é “hors concours”.

CUNA-06Diana Bracho não era a primeira opção para viver Leonora – e sim Angélica Aragón. Uma atuação irrepreensível. Visceral e emocionante, Diana Bracho teve aqui um de seus momentos mais lembrados na TV. Impossível não torcer por ela, e acompanhar o crescimento da personagem ao longo da novela. Gonzalo Vega fez um trabalho difícil e minuncioso como o frágil José Carlos. Acostumado aos papéis de galã, aqui, embora também desempenhando a mesma função, fez um personagem complexo com maestria.

Alejandro Camacho fez uma interpretação mais introspectiva como Alejandro Larios. É um dos seus papéis mais lembrados. E Rebecca Jones, que nesse momento, já despontava como protagonista, teve um oferecimento da produção para o papel de Vilma, que a princípio recusou. Para compensá-la, o crédito recebido foi “y la extraordinária participación de Rebecca Jones”. Ela fez muito bem. Vilma foi um de seus melhores trabalhos. Uma personagem cheia de contradições, profunda, carregando uma tragédia e vítima de seus desejos. Foi durante essa novela que Rebecca conheceu Alejandro Camacho, com que viria a ser casada por mais de 20 anos.

Carmen Montejo esteve encantadora como a terna madrinha Esperanza. Bem como a experiência de Carlos Cámara serviu de base para construir um Reynaldo que as pessoas estivessem do lado. A novela ainda revelou o talento de Rosa Maria Bianchi em seu primeiro trabalho no México, como Bertha, que a princípio tinha uma participação pequena, e foi crescendo ao longo dos capítulos, ganhando destaque, inclusive com sua intervenção como Michelle Albán, sua nova identidade para fugir de Catalina: uma francesa de lentes de contato.

CUNA-07A retumbante trilha sonora de Cuna de Lobos esteve a cargo de Pedro Plascencia Salinas (filho da famosa Carmen Salinas). Uma trilha inesquecível, desde o tema de abertura até todos os momentos de suspense e tensão compostos pelo músico. Entretanto, um problema legal com Federico Álvarez del Toro (cujos fragmentos de composições foram usados por Salinas) rendeu um problema legal que se arrastou por anos. Salinas disse que o plágio foi obra da Televisa, e não dele, na época.

Algumas frases de Catalina, que acreditava que “la casta es lo primero” foram reproduzidas ao longo dos anos, hoje em dia, aparecendo em redes sociais, etc. Algumas delas: “Cada parche es un día de mi vida”; “La ironia le va bien a la gente inteligente pero la mala educación no la soporto en mi casa.”; “¿no es mejor gobernar en el infierno que ser esclava en el cielo?”; “¡Pero yo sigo siendo la Reina de la manada!”; entre outras.

Em 1991, os mesmos Carlos Olmos e Téllez produziram Em Carne Propia, com Eduardo Yañez, Edith González e Gonzalo Vega como astros. Este último vivia aqui um grande vilão – Octavio Muriel – que assim como em Cuna de Lobos, também tinha uma incapacidade física – usava uma mão de ferro (mas não era fingimento). Em 1994, uma produção reunindo boa parte do elenco tentou resgatar o clima de Cuna de Lobos sem o mesmo sucesso, Imperio de Cristal trazia Rebecca Jones, Alejandro Camacho e Maria Rubio nos papéis centrais, mas não era um remake e nunca chegou ao mesmo nível de repercussão. Alejandro Camacho e Rebecca Jones mantiveram uma parceria, seja nas tela ou como produtores, em inúmeras novelas – mesmo depois de divorciados. Diana Bracho e Alejandro Camacho viriam a contracenar juntos novamente em Bajo la Misma Piel (2003). A novela ainda rendeu inúmeras paródias em programas de comédia, mesmo anos após seu final.

CUNA-08Um remake espanhol chamado La Verdad de Laura foi produzido em 2000, sem a mesma repercussão – a vilã fingia estar paralítica ao invés de caolha. Salvador Mejía produziu uma ação promocional para divulgar um possível remake no formato de série, onde Rebecca Jones personificaria Catalina, Danna Garcia, William Levy, Rafael Amaya e Dominika Paleta fariam os papéis jovens, mas o piloto nunca saiu do papel. Em 2010, Miguel Falabella fez uma espécie de homenagem ao gênero da novela mexicana em Aquele Beijo. A personagem da atriz Jacqueline Lawrence usava um tapa-olho combinando com sua roupa – tal e qual Catalina.

Imortal, Cuna de Lobos virou objeto de culto – e fãs que ainda buscam curiosidades a respeito da trama – e há anos carrega esse justo título de ser marco da TV mexicana, um verdadeiro antes e depois na produção de telenovelas. Obrigatória e imperdível.

Confira um vídeo com o elenco da novela!

8 comentários sobre “[1986] Cuna de Lobos

  1. João Vitor N. Mendes

    Essa novela foi tão perfeita q tudo teve química, absolutamente tudo. Elenco com direção, trilha com as cenas, atores com o texto, tudo…Uma das melhores, sem dúvida. Morro de medo que façam um remake e estraguem!

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Essa novela é daquelas que seria um sacrilégio um remake. Até porque com alguns canais a cabo reapresentando, dá pra ver que segue atual e muito recordada. Acontece que nem isso foi impedimento pra remake de outros clássicos (inclusive bem mais recentes). Caso um dia aconteça o remake, é rezar pra não ser palhaçada como a versão de 2009 de Corazón Salvaje.

  3. Felipe Rodriguez

    Bem, não temos muito o que falar de talvez a melhor novela de todos os tempos! É incrível como tudo nesta novela era praticamente perfeito, as atuações, os textos, a direção, a trilha sonora, e a inesquecível e inovadora história da trama onde a vilã Catalina Creel marcou época e é conhecida como a mãe de todas as vilãs! Foi uma novela que marcou o México e a dramaturgia Mundial! Enfim, um novelão com todas as letras! Impossível se esquecer deste clássico! Espero que não façam um remake dessa obra-prima, pois se ficar igual ao de “Corazón Salvaje” (2009) será uma lástima para a memória da novela. María Rubio não tenho palavras, uma atriz de primeira sem dúvidas! “Cuna de Lobos” é um marco nas telenovelas! Os anos 80 foram anos de ouro para a dramaturgia Mexicana!

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    “Cuna de Lobos” é até difícil escrever sobre, você tenta achar defeitos pra ficar imparcial… mas fica difícil! Eu vi gente comentando a beleza dos atores num grupo do Facebook… E digo: isso faz diferença? Achar que o padrão de beleza dos anos 80 era igual ao de hoje é ingenuidade.

  5. Mario J.

    Deveria também fazer um artigo sobre o clássico Cadenas de Amargura de 1991. Muito boa novela

  6. Kleber

    Uma novela especial. Não tem muito que falar. Só tenho vontade de assistir.

  7. Lucas

    Mesmo sendo criança quando passou no SBT, me recordo de algumas imagens – também da sátira que existia no Casa da Angélicas.
    Cuna de Lobos é o que foi comentado e muito mais: um marco, um clássico. Quero ver se em 2015 finalmente assisto, nem que seja o resumo em DVD.
    E pode até ser que jovens se desgastem criticando o padrão de beleza da época, mas aposto que nossas mães suspiraram por Gonzalo Vega, Alejandro Camancho, assim como Diana Bracho e Rebecca Jones tiveram – e ainda tem – seus encantos.

  8. Diogo

    uma coisa que reparei…é q a versão 2014 de Eu Não Acredito nos Homens está bem inspirada em cuna de lobos…em ambas a mocinha gosta de um cara que finge ser outra pessoa…e pelo q li da sinopse…em ambas ela tem seu filho roubado para q essa criança seja a filha de um outro casamento (tanto a maria dolores quanto a leonora também tem falsos casamentos com o vilão)…sobre cuna…é até estranho a televisa nunca ter feito remake…e antes que digam “ah…eles tem medo”…fizeram remakes de outras novelas bem emblemáticas…nem sei se ainda caberia por idade…mas ao invés de escolher quem seria a vilã…eu penso mto que eu gostaria de Yadhira Carrilllo como a protagonista…seria perfeita

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