[2008] Las Tontas No Van al Cielo

Uma das mais promissoras novelas de 2008 acabou com gosto de decepção. Com o ambicioso selo de “Novela de Vanguarda”, Rosy Ocampo lançou Las Tontas No Van al Cielo, que tinha tudo pra ser incrível, mas acabou ficando pelo caminho.

Na trama, Candy (Jacqueline Bracamontes) tem uma decepção no dia de seu casamento com Patrício (Valentino Lanús), descobre a traição deste com sua irmã, Alicia (Fabiola Campomanes). Decepcionada, foge de tudo e de todos, e vai viver em Guadalajara com seu tio Meño (Manuel “Flaco” Ibañez”), e pede que ele diga a todos que ela morreu. Candy se descobre grávida, e assim nasce Chava (Robin Vega), que cresce sem pai. Os anos se passam, e Candy se fechou para o amor, até conhecer o mulherengo cirurgião plástico Santiago (Jaime Camil). Enquanto Santiago cuida da beleza externa das mulheres, Candy tem uma ideia: montar uma clínica para cuidar da auto-estima da mulher. Santiago, porém, também tem uma decepção amorosa do passado: foi abandonado pela esposa Paulina (Karla Álvarez) com uma filha recém-nascida, por isso, não leva muito a sério seu relacionamento com a moderna Marissa (Sabine Moussier). A aproximação de Santiago e Candy movimenta a vida dos dois, mas ela não imagina que Patrício está mais perto do que imagina, e que o reencontro será inevitável.

TONTAS-01O primeiro capítulo foi antológico e bateu um recorde de audiência: 30,6 pontos! Um feito e tanto para uma novela original no horário das 8 da noite. Com muita agilidade e clipes musicais, conhecemos o amor entre Candy e Patricio, a despedida de solteiro onde Alicia ludibriou o cunhado, e o casamento desfeito, na cena mais marcante da novela: Candy rasgando o vestido de noiva em plena festa, ficando apenas de lingerie após flagrar sua irmã beijando seu recém-esposo. O sucesso foi imediato e a repercussão foi tanta que o Canal de las Estrellas reapresentou o primeiro capítulo no dia seguinte, à tarde.

O roteiro original, escrito pelo argentino Enrique Torres, pressupunha uma deliciosa comédia romântica que abordaria a já trilhada guerra dos sexos. É bem que verdade que apesar de se nomear uma “Novela de Vanguarda”, Las Tontas No Van al Cielo não era exatamente inédita. A diferença estava na ausência das figuras tão estereotipadas das vilãs diabólicas que moviam a trama. Aqui, de fato, era a mocinha quem tomava as rédeas da sua vida, e da novela! Candy era uma heroína muito natural, identificável e de forte apelo popular. Não era perfeita, tomava atitudes drásticas (como forjar a própria morte) e pagava por seus erros. Salvo os exageros em algumas composições, tudo caminhava bem.

TONTAS-02O erro começou quando Rosy Ocampo começou a ouvir demais o público. A começar pela mudança de título da novela. O original, Las Estupidas No Van al Cielo, foi considerado forte por parte das pessoas, e a novela mudou de nome antes da estreia. Um erro: a coluna que Candy possuía na revista de Raul (Carlos de la Mota) ainda atendia pelo título original da novela. Pode parecer bobagem, mas isso já demonstrou que apesar de querer fazer vanguarda e trazer uma história inédita, Rosy Ocampo não queria desagradar a parcela mais conservadora do público.

Apesar disso, os dois primeiros meses da novela mostrou uma novela fresca e inteligente. Marissa por exemplo, cumpria a função de ser antagonista, mas não era uma vilã. Era uma mulher inteligente e despojada, e que inclusive, era uma boa amiga de Candy, apesar das cantadas do noivo na amiga.

Haviam ainda pequenas ousadias, como a presença do tio Meño, que era discriminado pela família por ser gay, mas que era quem acolhia Candy, e no meio do caminho, descobria ter um filho crescido: Charlie (Eleazar Gómez). Uma história diferente – sobretudo para os padrões mexicanos. Também havia o conflito de Meño demorar a admitir sua homossexualidade para o novo filho. Nesse mesmo filão, outra personagem era Cecília (Ginny Hoffman), que trabalhava com Candy e estava apaixonada por ela. A personagem serviu como base pra mostrar o preconceito que a própria Candy chegava a demonstrar ao descobrir os sentimentos da amiga, o que obviamente, era esclarecido mais adiante.

TONTAS-03Outros núcleos também mostravam a luta entre machismo X feminismo: Eduardo (Alejandro Ibarra) era o melhor amigo de Santiago, tão cafajeste quanto ele, e que oprimia a esposa submissa Rosario (Jacqueline García), que logo ia trabalhar com Candy, causando uma verdadeira guerra em casa. E ainda os amores maduros de Isabel (Silvia Mariscal), mãe de Santiago, pelo pianista Jaime (Mauricio Herrera), uma paixão de juventude que ressurgia na maior idade. Ou o romance juvenil entre Charlie e Lucía (Violeta Isfel), sobrinha de Santiago, e que ele superprotegia com ciúmes absurdos.

Dois motivos deflagraram uma das maiores fugas de públicos já registradas por uma novela: Chava se descobria com câncer, e a única alternativa para Candy era procurar Patricio e revelar que, além de seguir viva, os dois tinham um filho. Acontece que a impressão que deu é que, após o esperado reencontro entre os dois, não havia planejado para continuar a novela a partir dali. O esgotamento de situações se deu de maneira espantosa. Era como se a cada bloco de capítulos, a história se esvaziasse drasticamente.

O segundo motivo foi ouvir o focus group que não entendia a ausência de vilãs na novela. A saída foi transformar Marissa na figura previsível da vilã, que mente deliberadamente, arma conchavos, etc. Grávida de Santiago, é abandonada no altar por ele, se une a Alicia para perturbar Candy. As duas viajam, Marissa dá a luz e dá seu filho a Alicia, para que essa apresente o filho como seu e de Patricio. Nisso, Santiago se vê obrigado a buscar o paradeiro de Marissa e seu filho sem sucesso. Mas que raios de vingança é essa?

TONTAS-04Paulina também ressurge disposta a causar problemas. Ao se reaproximar de Santiago e Rocío (Mariana Lodoza), tenta chantagear a filha para que esta se oponha a Candy – tática similar à de Patricio com Chava. Conclusão: o triângulo amoroso se perdeu, Patricio foi transformado num chato manipulador, e o próprio casal principal perdeu força com essa nova estruturação da novela.  A fresca novela se transformou num drama familiar onde crianças eram usadas como trunfos de chantagens de seus pais. Onde ficou a novela inteligente e romântica dos dois primeiros meses?

Nesse ínterim, uma trama ousada e diferente se sobressaiu: o romance de Charlie e Lucía se vê com um obstáculo imenso a superar. Charlie era diagnosticado com HIV positivo. Fruto de uma relação anterior sem preservativo. O interessante é que mesmo a novela sendo uma comédia, um drama como este não soou pesado em nenhum momento. E mais: mostrou que era possível a vida de Charlie seguir em frente apesar do diagnóstico. Ou seja, tratou do assunto como a seriedade merecida, mas sem terror.

Pena que muito da proposta original já tinha ido por água abaixo. Para chegar a 139 capítulos, a novela ainda usou mais e mais clichês folhetinescos. Mario (Agustin Arana), ex-amante de Paulina aparece para chantageá-la a respeito da paternidade de Rocío, para a decepção de Santiago. A reta final é esquisita, já que sumiram com Marissa, e ela de repente, reaparece apenas para causar alguma tensão e morrer, não sem antes revelar que o filho de Santiago estava com Alicia.

TONTAS-06A novela ainda contou com um capítulo final alternativo, exibido na sexta-feira, onde surgiram bobagens, do tipo: Patricio construir uma Candy robô. Era o ponto final de uma novela que começou realmente interessante e foi sendo transformada no “mais do mesmo”, numa versão ruim.

Um crossover (quando personagens de uma novela aparecem em outra) foi promovido entre as novelas de Enrique Torres que estavam na grade naquele momento. De Al Diablo con los Guapos, Milagros (Allisson Lozz) levou sua sogra megera Luciana (Laura Flores) para fazer um tratamento na clínica de Candy de Las Tontas No Van al Cielo.

Apesar de ser um hábito comum no Brasil, as inúmeras músicas na trilha não eram tão comuns no México, e raras vezes outras músicas tocavam além do tema principal (a excessão de novelas juvenis e musicais). Las Tontas No Van al Cielo inovou ao trazer um repertorio de grandes sucessos da rádio durante a novela. Às vezes, tocando até de forma exagerada ou fora de contexto. O tema principal “Esto es lo que soy”, de Jesse & Joy, tinha bastante a vertente da trilha. Embora a música fosse muito boa, a abertura da novela, com colagens de fotos e montagens de cenas foi uma das coisas mais horrorosas já produzidas para uma abertura. Detalhe: demorou um tempão para ser exibida, para no final, o resultado ser um desastre total!

TONTAS-07O elenco de Las Tontas No Van al Cielo, apesar dos pesares, teve seus destaques. Jacqueline Bracamontes defendeu lindamente sua Candy, emprestando todo seu carisma e energia, mesmo quando nem sempre o roteiro favorecia. De fato, foi o melhor personagem da novela, e a atriz soube conquistar os telespectadores logo de cara.

O personagem Santiago, apesar de trazer Jaime Camil praticamente com os mesmos trejeitos de seu papel anterior (Fernando em La Fea Más Bella, de 2006) tinha inúmeras semelhanças com os cirurgiões do seriado americano Nip/Tuck (2003). Até algumas frases eram as mesmas do personagem Christian Troy (Julian McMahon), ou mesmo alguns hábitos. Por exemplo: cirurgiões plásticos geralmente operam ao som de música clássica, mas no seriado – e na novela – eles escutavam sucessos do pop/rock. Também havia uma história idêntica sobre um transplante de rosto de um criminoso nas duas tramas. Agora, enquanto Nip/Tuck trazia cirurgiões sérios, o da novela era um mulherengo, mas que vivia fazendo caretas, caras e bocas. Houve um certo cansaço do público ao ver o ator interpretar praticamente o mesmo personagem o marcou tanto tão precocemente.

TONTAS-05Outro grande destaque foi Manuel “Flaco” Ibañez. Depois de anos com personagens irrelevantes, o ator finalmente encontrou um personagem a sua altura. O Tio Meño misturava dosava a figura do gay afeminado, sem cair na caricacatura – dando graça à novela. E nos momentos de drama, se sobressaiu lindamente. A relação com o filho adolescente foi um dos pontos altos da novela.

E os atores juvenis também brilharam. Eleazar Gómez, já apontado como galã, provou que não era só um rosto bonito nas cenas mais densas do personagem Charlie. E Violeta Isfel, após anos de carreira sem reconhecimento, finalmente teve um papel importante numa novela. Lucía também não era penas a adolescente comum, já que tinha que lidar com temas delicados no decorrer da história.

Alguns atores tiveram personagens apagados, mas com bons momentos, como Ana Bertha Espín, que viveu Gregória, a amargurada mãe de Candy. Um papel difícil, já que era sério dentro de uma comédia – talvez por isso, pecou pela falta de uma real função para ela na trama. E Julio Alemán, ao contrário, começou apagado, mas seu papel foi crescendo. Era Arturo, pai de Patrício, e que aos poucos, também foi se convertendo em um dos vilões da novela.

TONTAS-08Quem ficou a desejar foi Sabine Moussier, que fez o que pôde com sua Marissa. A atriz estava finalmente num papel diferente, e desfrutando, e a mudança radical de seu papel a mandou diretamente para o lugar comum. A atriz não escondeu sua decepção com os rumos que a personagem tomou – que inclusive ficou sumida por um tempo na trama. E Valentino Lanus, que deveria ser a boa terceira parte do triângulo, ficou infantilizado, mas de uma forma sem graça ou sucesso. Não foi culpa da performance do ator, é que realmente o material que tinha em mãos não deu margem para o ator.

Apesar de inúmeras boas intenções se perderem ao longo do caminho, Las Tontas No Van al Cielo foi uma novela colorida, e que ao menos, foi original numa época onde as ideias novas (ou não tão novas) são cada vez mais difíceis. Rosy Ocampo ainda insistiria em “Novelas de Vanguarda” em sua próxima produção. Mas nesta, ficou um grande gosto de decepção.

Confira um vídeo exclusivo com o elenco da novela!

16 comentários sobre “[2008] Las Tontas No Van al Cielo

  1. João Vitor N. Mendes

    Com excessão de Qué Pobres Tan Ricos, eu nunca gostei das comedias da Rosy, pra mim as outras três são terriveis, mas entre elas eu prefiro as tontas do que a fea e a Eva! O casal da Violeta e do Eleazar foi o unico que me chamou atenção! Alias, gostei de ver eles juntos novamente em Atrevete a Soñar, adoro os dois! Acho que com excessão de Sortilegio, a Bracamontes teve muito azar nas outras novelas que protagonizou!

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Eu acredito que a Candy foi um personagem bem mais interessante que a Maria José em Sortilegio, que foi uma heroína bem plana. É que a diferença de qualidade das duas NOVELAS é colossal.

  3. Gabriel silva

    Já eu acho a rosy ocampo uma das melhores autoras da televisa, só não entendo pq ela só escreve comédias e o Jaime camil Ta sempre presente?
    As tontas… foi meio clichê mas gostei assim mesmo. Seria interessante ver a sabine como uma vilã cômica.

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Então Gabriel, Rosy Ocampo é uma produtora, não escritora. Ela cuida da novela no aspecto global: contrata diretores, escritores, atores, escolhe a história…O escritor de Las Tontas no van al cielo é Enrique Torres. Um trabalho dele bem conhecido é a história de “Pérola Negra”. Aqui no Brasil, a novela foi adaptada por Henrique Zambelli pro SBT, mas a original é dele.

  5. Lucas

    Eu me decepcionei tanto com essa novela, quem nem lembrava mais das coisas que aconteciam… Todo mundo me irritava da metade em diante, mas ninguém mais que o Patrício, um personagem chato, vulnerável, que queria pegar metade do elenco feminino, mas, em teoria, era sério. Tipo, OI?
    Ainda bem que a Rosy voltou aos eixos com Eva e La Fuerza del Destino, porque se dependesse dessa e de Camaleones… coitada!

  6. Gisele

    Eu gostei dessa novela no começo, da Candy descobrindo a traição do marido com a irmã e da cena dela rasgando o vestido no meio da festa. Ri muito com diversas cenas do Jaime Camil, mas depois comecei a desgostar da novela, da morte da personagem da Sabine com essa vingança de esconder o filho, eu comecei a nem mais entender a novela. Voltei a me interessar com a volta da personagem da saudosa Karla Alvarez como vilã, mas já era final da trama.

    Então, essa é uma novela que eu não sei o que dizer que resuma minha opinião, pois tinha muitas expectativas e acabei me decepcionando.

  7. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    O Patrício também me irrita! Dá uma super mancada com a Candy, e depois no salto de tempo, ficamos sabendo que ele tem outro filho além do Chava e que tá casado justamente com a mulher que causou todo o problema com a Candy! Acho que por isso o triângulo não vingou, era difícil que a Candy realmente considerasse ter algo com ele outra vez.

  8. Kleber

    Uma novela que ficou com gosto de que poderia ser melhor…

    Não é das piores, nem das melhores, passou em branco.

    Gosto da Bracamontes .
    Destaco a trilha sonora da novela e me parece que a Rosy entrou nos eixos depois de Camaleões. Porém, o que chega dela aqui no Brasil… kkkk

    Vamos aguardar

  9. Diogo

    sobre a novela: nem sempre o público sabe oq quer…por incrível que pareça…tanto q a novela ia mto bem…do nada, mudaram o rumo e o q era uma comédia romântica ficou triste, estranho e confuso…ao menos…rosy ocampo tentou fazer algo diferente…disso ninguém pode culpá-la…de todos produtores da televisa…ela é quem mais tenta coisas novas ou originais…(claro, mesmo q las tontas tenha se equivocado, nada pior que camaleones que foi um erro completo)

    sobre a jacqueline bracamontes…obviamente depois de rubi, o caminho natural seria ela como protagonista….mas pra ser sincero…acho q ela nunca deu certo como protagonista…a novela dela que foi melhor foi Sortilegio…mas acho q ela passou meio apagada ali…já esteve melhor como atriz nas Tontas…mas a novela passou de grande sucesso a fracasso em poucos capítulos…

    ou seja…o melhor momento dela….ainda é em Rubi…uma novela q ela nem foi a principal

  10. Danilo Rodrigues

    O mais marcante dessa novela pra mim era a naturalidade e espontaneidade das interpretações, principalmente por parte da Jacqueline Bracamontes, além da descoberta da dupla Jesse y Joy, que após ouvi-los na abertura da trama acabei buscando outras músicas deles e me tornando admirador do trabalho.

  11. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Kleber, eu curti bastante Por Ella Soy Eva, La Fuerza del Destino e Que Pobres Tan Ricos da Rosy Ocampo!

  12. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Danilo, Jesse y Joy realmente emendam inúmeros hits em trilhas de novelas mexicanas. Além das aberturas de Las Tontas No Van Al Cielo, eles cantaram tema de abertura em Que Pobres Tan Ricos, além de serem parte da trilha de Corona de Lagrimas e La Que No Podia Amar (com a melhor música deles, na minha opinião).

  13. Kleber

    Também gostei Thiago!

    Eu quis dizer que as novelas dela melhoraram após Camaleões. Até mesmo Mentir para vivir.

  14. Luccas

    Parei no capitulo 75 e nunca mais voltei, rsss… O começo é sensacional, mas depois vai ficando um saco. A partir de que momento começam a haver mudanças? No 75 já achei tudo muito chato. ZzzzZZzzz demais.

    E ODEIO O PERSONAGEM DO PATRICIO. Nojo total!

  15. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Mudanças eu não digo, Lucas… Acho que depois do capítulo 50 por aí…a história se esgota de uma hora pra outra… é logo quando o Chava se descobre com leucemia e a Candy revela ao Patricio que está viva! Dali em diante, a novela caminha em vão numa falta de assunto total.

  16. Danilo

    Thiago, Jesse & Joy também esteve na trilha de Bellezas Indomables da Azteca com Dulce Melodía.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *