[1981] El Derecho de Nacer

Obra imortal da teledramaturgia latina, El Derecho de Nacer surgiu como uma radionovela cubana e teve inúmeras versões. Essa foi a mais bem-sucedida realizada no México e consolidou a carreira de Veronica Castro.

Na trama, original de Félix B. Caignet, Maria Elena del Junco (Verónica Castro) vive uma paixão proibida com Alfredo (Salvador Pineda). Ao se ver grávida, ela é abandonada por ele, já que é casado. Isso enfurece o pai da moça, Don Rafael del Junco (Ignacio Lopez Tarso), um homem autoritário e conservador, que não aceita a vergonha da filha grávida e solteira. Para isso, ordena que, ao nascer o filho de Maria Elena, o matem. Isso só não acontece porque a negra Maria Dolores (Socorro Avelar) intervém, e foge com o recém-nascido. Enquanto Don Rafael acredita que o bebê foi morto, Maria Elena descobre o que aconteceu, mas perde a pista do paradeiro de Maria Dolores. Anos se passam, essa criança se tornou o bem-sucedido médico Alberto Limonta (Humberto Zurita), que sabe que Maria Dolores não é sua mãe, mas ignora sua verdadeira família. Porém, ele está mais próximo dela do que imagina. Além de se apaixonar pela jovem Cristina (Érika Buenfil), sua prima, Alberto conhecerá Don Rafael, e doará sangue justamente para o homem que quase impediu seu direito de nascer.

DERECHO-01Melodrama clássico e lacrimejante de raiz, El Derecho de Nacer foi outro grande sucesso sob a produção do Sr. Telenovela, Ernesto Alonso. O ano era 1981 e este era o momento certo para realizá-la sem que a primeira fase ficasse fora de contexto – esta primeira fase se passava na década de 60, no porto de Veracruz. Vários dogmas machistas, como a honra da família, a vergonha pela filha grávida, perderiam o sentido numa adaptação futura – já que aqui, El Derecho de Nacer não era uma novela de época, e sim contemporânea.

A espinha dorsal foi inteiramente respeitada. Estavam lá os personagens que já haviam emocionado inúmeros países: Maria Elena, Mamá Dolores, Don Rafael, “Albertico” Limonta (como era chamado pela Mamá Dolores), etc. Dois motes foram responsáveis pelo avassalador sucesso: a história de uma mãe que incansavelmente busca seu filho desaparecido (Maria Elena), e o contraste de outra mãe, negra, subjulgada pela sociedade, que a base de muito trabalho, consegue formar seu filho em Medicina (Maria Dolores).

Aspectos importantes sobre o racismo foram abordados. Desde quando “Albertico” ainda era criança, Maria Dolores já sofre com a desconfiança de que haveria roubado a criança, sendo ela uma negra. Já na etapa final e definitiva, Alberto se envolve com Amelia (Laura Flores), jovem de sociedade, e que desconhece que Alberto tenha sido criado por uma mulher simples e negra, e a situação embaraçosa que se cria serviu para tocar no tema de forma ampla.

DERECHO-02Claro que, até pelo estilo da época, El Derecho de Nacer é uma novela parada. Cenas muito longas, exclusivamente baseadas em diálogos, quase sem ação, as vezes sem trilha, mostram um pouco da produção de telenovelas da época. Mas, a novela foi sim um grande sucesso. Embora poucas, haviam cenas externas que valorizaram a novela, com as locações no porto de Veracruz. Exibida inicialmente na faixa das 23h, logo foi remanejada para às 21h, onde teve êxito. Essa não era a primeira vez que uma novela de Verónica Castro ia parar às 21h pelo seu desempenho. Em 1979, aconteceu fato similar com Los Ricos También Lloran.

Aliás, algumas situações que existiam na sinopse de El Derecho de Nacer também estavam em Los Ricos También Lloran, com a própria Verónica. Era justamente a busca por anos de um filho desaparecido. Talvez por isso a escolha de Veronica para Maria Elena soasse até óbvia. Faltou mesmo um grande romance para esta nova adaptação. Maria Elena tinha um namorado da juventude (Salvador Pineda, um canalha), um bom moço que a pretendia (Sergio Jimenez), um quase marido que morre na véspera do casamento (Manuel Ojeda), mas não tinha uma história de amor tão forte quanto a história de amor pelo seu filho. Além disso, outra parte clássica da novela, mostra a protagonista convertida em freira. Mas nesse momento, quem chama a atenção é a história de amor juvenil. E a verdade é que, com Maria Elena no convento, o protagonismo da trama quem assume é Alberto e Cristina.

DERECHO-03A adaptação feita por Fernanda Villeli pode ser considerada moderna para a época, criticando abertamente o machismo e a falsa moral familiar. Uma das boas alterações foi diminuir muito o tempo que Maria Elena fica no convento. Afinal, isso deixa a protagonista temporariamente sem ação na trama. Ainda assim, algumas subtramas surgiram daí. Maria Elena trabalha ajudando mulheres grávidas e desamparadas. Ela é quem faz a ponte para Isabel chegar à família. A mãe agonizante da bebê (Raquel Pankowsky) pede que a filha seja entregue à uma família.

Outro núcleo envolve a volta de Alfredo à cidade de Veracruz anos depois de deixar Maria Elena. Ele está sinceramente arrependido e tenta o perdão de Maria Elena, que não aceita. Já viúvo ele tem um filho Osvaldo (Miguel Ángel Ferriz). Este é um tipo boa praça, mas não sabe o que quer da vida. Tenta algo com Cristina, mas vira amigo de Alberto Limonta após cair no alcoolismo e receber sua ajuda (e por ironias da vida, é seu meio-irmão). Inclusive, durante uma reunião do Alcoólicos Anônimos, há uma participação de Norma Herrera como uma alcoólatra em recuperação. Um detalhe, dois anos depois, na novela El Maleficio, ela também interpretaria a ex-esposa alcoólatra do protagonista.

DERECHO-04O elenco foi perfeito. Verónica Castro estava no momento ideal para viver Maria Elena. A personagem tinha a dose de lágrimas ideal para a atriz deitar e rolar. Assim, se consolidou como uma grande protagonista, e não somente um fenômeno passageiro por Los Ricos También Lloran. Após essa novela, Verónica teve uma sólida carreira internacional, fazendo várias novelas na Argentina. Só retornaria às novelas mexicanas com Rosa Salvaje (1987).

O grande ator Ignacio López Tarso teve uma das atuações mais marcantes de sua carreira: Don Rafael era um vilão desprezível. Mais até do que o chocante ato de mandar matar o neto, estava nele a moral desprezível machista e autoritária da época. Essa era a magia. Diferente de hoje, os vilões precisam ser quase serial killers para serem considerados bons vilões, Don Rafael, no fim, não matou ninguém, mas foi um dos vilões mais marcantes da TV.

Aqui, foi uma boa oportunidade de ver Maria Rubio num papel diferente antes do grande estigma que virou a Catalina Creel de Cuna de Lobos (1986), como Clemencia – a mãe da protagonista. Uma mulher submissa, apegada as convenções, temerosa ao marido. Uma grande atriz, como sempre.

DERECHO-05Salvador Pineda era um ator que alternava protagonistas com vilões. Aqui, ele fazia as vezes de vilão. Mas era um personagem humano, bem defendido. O mesmo vale para Sergio Jimenez, como o pacato Jorge Luiz.

Há ainda que se destacar o trabalho de Socorro Avelar. A atriz, que tem traços indígenas, teve que ser caracterizada como uma mulher negra, já que no México, havia poucas atrizes com essas características. Infelizmente, foi o único papel de real destaque na TV para essa atriz, que fez a Maria Dolores de forma terna.

E por fim, grande destaque teve o elenco juvenil, com atores que se consagrariam e viriam a ser protagonistas. Humberto Zurita teve aqui seu primeiro papel de destaque e foi uma grande revelação. Respeitado por público e crítica, Humberto teve uma carreira respeitável na televisão, que dura até hoje. Seu Alberto era o homem ideal: bonito, nobre, justo. Tinha a performance mais rígida como era comum na época.

DERECHO-06E Érika Buenfil, com certeza, outro nome de peso, e que já nessa novela já demonstrava que seu destino era protagonizar. Cristina era extremamente bela, sensível, encantadora. Ela e Humberto atuariam juntos ainda em El Maleficio (1983), dessa vez, ela como a vítima e ele seu algoz. Érika e Laura Flores transportaram a amizade das personagens pra vida real, e chegaram a atuar juntas novamente em outras ocasiões – algumas em função dessa amizade, como em Marisol (1996), El Alma No Tiene Color (1997) e Tres Mujeres (1999).

Laura Flores aqui foi uma espécie de vilã juvenil – que até nem teve todo seu potencial explorado. Amélia era mais uma jovem preconceituosa que uma rival para o amor de Cristina e Alberto. Mas Laura Flores foi uma revelação. Miguel Ángel Ferriz e Alba Nydia Díaz foram revelações da época, mas não tiveram uma carreira tão ascendente quanto a de seus companheiros.

Verónica Castro praticamente atuou em família. No papel de Matilde, a irmã invejosa de Maria Elena, estava Beatriz Castro – irmã de Verónica na vida real. Alberto Limonta recém-nascido foi vivido por Michel Castro, filho de Verónica que havia acabado de dar a luz (até por isso, a atriz aparecia mais cheinha em cena). E, numa fase intermediária, quando “Albertico” tem 6 anos, é vivido pelo outro filho da atriz, Cristian Castro – este, hoje um cantor muito famoso no cenário latino.

DERECHO-07Alguns hábitos da época puderam ser vistos na novela. Por exemplo: hoje o cigarro é praticamente algo abolido na TV, ou quando aparece, remete apenas aos antagonistas. Aqui, todos fumam o tempo todo. E um absurdo: Alberto, médico, acende o cigarro de uma paciente grávida!

El Derecho de Nacer foi uma novela com múltiplas versões desde sua origem, como radionovela em Cuba, em 1946. No Brasil mesmo, em 1964, existiu uma versão de estrondoso sucesso, O Direito de Nascer, com Nathalia Timberg como Maria Elena, produzida pela extinta TV Tupi. A história da novela se passava em Cuba nesta ocasião. O sucesso foi tanto que no último capítulo, o elenco percorreu em passeata, tanto em São Paulo, quanto no Rio de Janeiro no dia seguinte. Esse foi o primeiro fenômeno de repercussão em novelas no Brasil. O Brasil ainda produziria dois remakes da novela, em 1978, com Eva Vilma, também na TV Tupi, e em 1997, com Guilhermina Guinle (versão esta que só foi exibida em 2001).

DERECHO-08No México, em 1966, o próprio Ernesto Alonso produziu uma versão, com Maria Rivas. Essa novela era exibida no horário nobre, mas não ia ao ar todos os dias da semana. A versão de 1981 foi uma das mais bem-sucedidas. O texto ficou adormecido até que, em 2001, foi produzida novamente, por Carlos Sotomayor numa versão que ficou a desejar. Inúmeras mudanças (algumas boas, a maioria ruins) prejudicaram o andamento da novela. A começar que em 2001, a história de uma mulher que se converte em freira pra fugir da imposição do pai já não colava e a novela era contemporânea. Por outro lado, criaram um novo personagem para que Maria Elena tivesse uma grande história de amor. Os protagonistas foram vividos por Kate Del Castillo e Saul Lizaso.

Não resta dúvidas que tudo em El Derecho de Nacer é um clássico. Marco indiscutível da teledramaturgia latina, teve nesta versão com Verónica Castro mais uma prova que sua história permanece imortal.

Confira abaixo um vídeo com o elenco da novela! E inscreva-se no Canal do Youtube!

8 comentários sobre “[1981] El Derecho de Nacer

  1. Diogo

    é uma novela bem “do seu tempo”…incomoda ver cenas enormes onde nada acontece…ou quando acontece…demoram um tempão (quando Maria Elena confessa que está grávida…vc sabe que aquilo vai acontecer…mas eles falam e falam falam…até q aconteça

    ao mesmo tempo, a trama é mto forte…não gosto da fase dela freira…acho q falta um verdadeiro galã pra veronica castro…fizeram isso na versão da kate del castillo…mas a novela fracassou (não acho q tenha sido por isso…particularmente não acho q a kate tenha perfil pro personagem)

    acho que essa novela tem grandes trabalhos de ignacio lopez tarso e humberto zurita…

    …e como fumam!

  2. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Cigarro no México era como no Brasil nas novelas dos anos 70 e 80, quase 90% do elenco aparecia fumando.

  3. Lucas

    A questão do cigarro era cultural. Era moda e muitas gente ainda não tinha consciência de como podia fazer mal. Minha mãe fumou por muitos anos, mesmo grávida, e nunca aconteceu nada a ela nem aos meus irmãos, hahaha! Vai entender!
    Mas falando da novela, tenho acompanhado o resumo pelo Youtube e estou amando. As cenas, talvez por serem editadas, não me incomodam pela sua extensão, nem pelos diálogos longos, mas pela produção que, muitas vezes, parece Chaves e Chapolin, haha!
    Mesmo o fato de não ter um super romance pra Maria Elena, não acho ruim, já que temos a Érika, aqui jovem e encantadora, e o Humberto, galante justiceiro, para ocupar o posto de casal romântico. Destaque por Sergio Jimenez que, mesmo não sendo o ator mais bonito da Televisa, defende muito bem o papel do apaixonado sem esperanças.
    E o que falar de Ignacio Lopez Tarso, Maria Rubio e Socorro Avelar? Simplesmente soberbos!
    Apesar do ritmo lento, produção modesta e ausência de protagonista maduro, El Derecho 1981 bota muita novela da atualidade no chinelo. Eu recomendo!

  4. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Sim Lucas, eu acho que existe o fator cultural forte aqui. A própria época foi moldando aparência, modismo, etc. Basta ver que os galãs aqui são todos magricelos e hoje em dia saradões. E assim, a produção não é “modesta”, é modesta pros dias de hoje, mas precisamos entender as dificuldades técnicas daquela época. Imaginem o que era a gravação de uma cena externa naquela época? Algo muito complexo. Eu até coloquei algumas no vídeo que fiz pra que todos reparassem na mudança de qualidade de uma cena pra outra. Eram equipamentos sem tantos recursos, enfim, a produção de TV pra época não era algo tão arrojado. E estou de acordo, neste sentido, hoje em dia tem coisas bem mais infames, como aquelas janelas de chroma-key (tipo as do hiate de Corazón Indomable).

  5. Lucas

    Ah sim! Entre as paisagens nas parcas locações de El Derecho e os efeitos infames das novela do Mejia e cia. Ltda, ainda prefiro El Derecho!

  6. Diogo

    comparado com os os ricos também choram…el derecho de nacer foi superprodução…até q teve bastante externa…claro, nada comparado com o que se vê hoje…mas nao achei paupérrima…

  7. Gui Costa

    Destaque para o tema musical que é lindo!

    Quiero estar siempre a tu lado y descubrir cada mañana al despertar otra aventura por vivir…

    A produção realmente é ótima para a época, onde se fazia tudo tudo em estúdio…

    Ernesto Alonso sempre foi um produtor muito ousado e inovador!

  8. Thiago Fernandes Autor da Postagem

    Sim, nessas novelas antigas, enxergamos as imagens cada uma de um jeito, sem um conceito claro de iluminação. Nessa, inclusive, mas pra algo com mais de 30 anos, diria que se defende muito bem.

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